Flagrantes: A mala da Tia Nonoca

Autor: Pedro Luis Kantek Garcia Navarro 

9h11

Um sujeito entra no prédio da Prefeitura de Curitiba carregando uma pesada mala. Pára na entrada, orienta-se, escolhe um estagiário que por ali andava e aborda-o: "Posso deixar a mala com você, enquanto vou resolver um assunto?" O estagiário, pego de surpresa, aceita e leva a mala para detrás do balcão.

10h11

O estagiário olha a mala e pensa com seus botões "Que assunto demorado..."

11h11 e 12h11

A despreocupação é substituída por leve apreensão que, por sua vez, é trocada por pavor crescente. Depois do meio-dia, convencido de que a história estava esquisita e que a mala fora abandonada, o estagiário chama seu chefe e conta-lhe a história. Este chama um guarda municipal, que convoca seu chefe, que chama seu superior, que ouve a história, sopesa a mala, pesa os prós e os contras e,... resolve chamar a polícia.

13h07

4 viaturas chegam e discretamente (se é que isso é possível) dispõem-se nos pontos principais do prédio. O Coronel no comando, depois de absorver a história, dá o veredito: "chamem o esquadrão anti-bomba". Antes que o prezado leitor ache a reação exagerada, deixe eu contar um caso verídico que aconteceu comigo. Chegando em Paris com uma mala que pesava 1/2 tonelada, fui trocar meus parcos dinheirinhos. Como a mala era um peso danado de carregar, deixei-a na entrada da pequena e meio vazia agência de câmbio. A conversa mimimesca com o mau-humorado francês teve de ser interrompida. Saí correndo em direção à entrada. "Les flics" (os hóme) estavam de olho na mala e já iam levando ela. E isso foi bem antes do 11 de setembro.

13h41

Chega o esquadrão anti-bomba. Numa viatura bacana, parecida com as dos seriados americanos, vem a turma do barulho. Tentam entrar sem chamar a atenção, mas o leitor bem pode imaginar: é impossível. Saem dois sujeitos vestidos com uma roupa esquisita à prova de explosão; devia pesar mais de 10 kilos. Ainda bem que sempre tem um gaiato por perto: imediatamente batizou a roupa de enfrenta-patroa, segundo ele, ótima para encarar quizílias matrimoniais.

14h04

Toda a prefeitura já sabe do ocorrido e acompanha o desenrolar do caso. Eu sempre me pergunto porque as organizações gastam milhões com telefones digitais, redes locais, fibras óticas e coisas que tal. Em pouquíssimos minutos, todos no prédio já acompanhavam, torciam e apostavam no desenlace. O esquadrão anti-bomba leva a mala suspeita para um local protegido. O chefe do esquadrão passa o detector de metais e o dito cujo dispara um grito estridente cada vez que chega perto da mala. "Pelo peso, se for explosivo, o estrago vai ser grande", sentencia.

14h32

BUMMMM. Ouve-se uma explosão, pequena e abafada é verdade, mas ainda assim uma explosão. Uma eletricidade percorre as já elétricas pessoas. Corrida às janelas. Passado o susto, vem a explicação: foi o esquadrão que detonou uma pequena carga, tudo sob controle, para ter acesso ao interior da mala.

14h58

Finalmente, a mala é rastreada por instrumentos próprios e tem-se o veredito: a mala contém roupas, alguns livros, talheres, tudo inofensivo. Uma vez aberta, são encontrados apenas dois candidatos à bomba: Uns exemplares atrasados de CARAS e uma bomba de chupar chimarrão -- tinha ancestrais gaúchos o dono da mala -- enfim, nada perigoso. O raio da bomba de chimarrão junto com o porongo é que enlouquecia o detetor de metais. A Polícia vai embora, ficam apenas alguns agentes esperando o dono da mala aparecer.

O outro lado

Vamos acompanhar agora o outro lado da história. O dono da mala é um recém-graduado em antropologia em Taubaté. Prestes a se formar lá, ele pesquisa na WEB e descobre que temos excelente curso de mestrado em antropologia em nossa cidade. Entra no www.curitiba.pr.gov.br e descobre várias coisas: a Prefeitura aceita guardar malas (esqueceu de ler que a PMC faz isso NA RODOFERROVIÁRIA) e que a Fundação de Ação Social (FAS) consegue albergar pessoas. Deve ter pensado, como Curitiba é organizada. Mal sabia ele como ia pôr à prova essa organização. Durango como ele só, junta suas poucas coisas, empresta a mala da tia Nonoca e... Curitiba, aqui vamos nós. Chegando aqui, direto para a Prefeitura resolver tudo. Deixa a mala guardada e vamos atrás da FAS. Lá a coisa é mais demorada, mas finalmente pelas 15h encontra-se um albergue legal. É hora de voltar buscar a mala. Aguarda uma carona (que o dinheiro é curto, nunca é bom esquecer) e finalmente, no fim da tarde chega na PMC, atrás do estagiário.

Quando reconhecido, imediatamente o dono da mala é cercado pela polícia, todos querem saber o que é aquilo. O sujeito levou o segundo maior susto da vida dele: Explicações, mostra documentos, conta a história, finalmente todos se acalmam. É hora de mostrar a mala. Aí sim é que o sujeito leva o maior susto da vida: a mala parecia um frango desossado, com uma coxa arrancada. Ai, que horror! Toda a privacidade exposta, e a mala da tia Nonoca, que ela emprestou depois de um colar de recomendações: não encher demais, não pôr peso em cima, cuidado com a chuva, essas coisas.

Ainda bem que uma alma piedosa se compadeceu do cara: vendo aquele drama, decretou: a Prefeitura vai te dar uma mala em melhores condições. Toca a levar o antropólogo, agora como convidado do Município, até a FAS (de novo!), onde tem um lugar chamado Liceu do Ofício do Couro. Lá, artistas artesãos recuperam itens lançados pela população no "Lixo que não é Lixo" e criam verdadeiras obras primas de restauro.

Ufa, que sorte! Achou-se uma mala bacana, fêz-se a mudança dos itens da mala da tia Nonoca para a nova mala e doou-se-a ao novo proprietário. No fim, entre mortos e feridos, tudo acabou bem: a tia Nonoca vai ficar satisfeita, a nova mala é superbacana.