A internet e a sociedade em redes

Autor: Ozir Francisco de Andrade Zotto - GPT    


INTRODUÇÃO

Fruto da convergência do desenvolvimento das telecomunicações e dos computadores, a Internet tem revolucionado até mesmo o mundo das comunicações e dos computadores como nada antes. O telégrafo, o telefone, o rádio e o computador prepararam o palco para a integração de capacidades únicas da Internet, que é, ao mesmo tempo, um mecanismo de disseminação de informações de alcance mundial, e um meio para a interação e colaboração entre pessoas e entre computadores, independente de localização geográfica [5].

Da mesma forma como a invenção do alfabeto, há 2.700 anos, possibilitou uma transformação qualitativa na comunicação e produziu uma cultura acumulativa baseada no conhecimento, fundamentos para o desenvolvimento da filosofia ocidental e da ciência como hoje a conhecemos, a integração dos vários modos de comunicação - escrita, oral e audiovisual - integrados numa mesma rede interativa mundial de computadores tem o potencial de mudar fundamentalmente o caráter da comunicação humana e está produzindo uma emergente cultura da virtualidade real.

Este artigo está baseado, principalmente, em trechos do livro The Rise of the Network Society, de Manuel Castells [1], um dos principais pesquisadores e pensadores sociais da atualidade. Neste livro, que é o primeiro de uma obra em três volumes, Castells examina com extensão e profundidade a sociedade da informação, e os efeitos fundamentais da tecnologia da informação no mundo contemporâneo. Como contraposição e complementação a essa abordagem sociológica, serão inseridos alguns vislumbres da visão do pensador bahá'í, Shoghi Effendi [4].

O PARADIGMA DA "MENTE ALFABETIZADA"

Inventado na Grécia por volta do ano 700 AC, o alfabeto é considerado a tecnologia fundamental para o desenvolvimento da filosofia ocidental e da ciência como hoje a conhecemos. Antecedida por 3.000 anos de evolução da tradição oral, essa mudança de paradigma ocorreu quando a sociedade grega atingiu um novo estado mental, "a mente alfabetizada", que prontamente possibilitou uma transformação qualitativa na comunicação humana. Embora uma disse-minação mais ampla dessa tecnologia só acontecesse muitos séculos depois - com a invenção e difusão da imprensa e da fabricação do papel - foi o alfabeto que proveu a infra-estrutura para a comunicação acumulativa baseada no conhecimento.

Entretanto, o discurso racional possibilitado pelo alfabeto separava a comunicação escrita do sistema de símbolos e percepções audiovisuais, tão necessários para expressar a vasta riqueza de expressões humanas. De certa forma, isso estabeleceu uma hierarquia social entre a cultura alfabetizada e as expressões audiovisuais, relegando sons e imagens para o mundo das artes, das emoções particulares e das liturgias públicas. A contrapartida dessa situação aconteceu somente no nosso século, com a revolução das mídias de comunicação audiovisual de massa - primeiro o cinema e o rádio, depois a televisão - que sobrepujaram a influência e a importância da comunicação escrita para a maioria das pessoas. As frustrações intelectuais contra a influência da televisão, ainda hoje dominantes entre os críticos da comunicação de massa, têm seus fundamentos nessa tensão entre a "nobre" comunicação alfabética e a comunicação sensorial não-reflexiva.

A COMUNICAÇÃO DE MASSA PROVOCA MUDANÇAS SOCIAIS?

A televisão tem sido o meio predominante para a chamada comunicação de massa. Nesse sistema de comunicação uma mensagem similar é simultaneamente transmitida de poucos centros emissores para uma audiência de milhões de receptores1 .
1 De acordo com estatísticas da UNESCO, em 1996 existiam 1 bilhão e 361 milhões de aparelhos de TV no mundo, numa relação de 236 para cada 1000 habitantes. Ver site http://unescostat.unesco.org/yearbook/Table6_5.htm

Além da síndrome do menor esforço, que parece estar associada com a televisão como mídia, as condições de estilo de vida também poderiam explicar a rapidez e a penetração do domínio que essa mídia conseguiu, tão logo apareceu. Após um longo e cansativo dia de trabalho e com carência de alternativas para outros envolvimentos sociais e ou culturais, apenas uma pequena parte das pessoas escolhe antecipadamente o programa que vai ver. Castells [1, p. 331] usa as pesquisas de NEUMAN [6] para mostrar que as pessoas, geralmente, primeiro tomam a decisão de assistir televisão e só depois examinam os programas disponíveis, para selecionar o mais atrativo (ou o menos chato, o que é mais freqüente). Além disso, o ato de assistir televisão é geralmente misturado com a execução de outras atividades, como tarefas caseiras, compartilhar refeições e outras interações sociais.

A poderosa presença massiva de provocantes mensagens subliminares, com uso de sons e imagens, poderia levar a crer que esse meio tenha um poder de produzir impactos dramáticos no comportamento social. A maioria das pesquisas aponta para uma conclusão diferente. Após cinco décadas de pesquisas sistemáticas, a conclusão é que a audiência da comunicação de massa não é indefesa e a mídia não é tão toda poderosa.

O ponto chave é que a comunicação de massa ocorre num só sentido e que a comunicação real depende da interação entre o emissor e o receptor na interpretação da mensagem. Castells cita um texto seminal de Umberto Eco [1, p. 335] que provê um perspicaz discernimento para interpretar os maus efeitos da mídia: "A mensagem tem formas significantes que podem ser preenchidos com diferentes significados... Então cresce a suspeita que o emissário organiza as imagens televisuais baseado em seus próprios códigos, que coincidem com aqueles da ideologia dominante, enquanto que o receptor preenche isso com sentidos "aberrantes", de acordo com seus códigos culturais particulares."

Uma das conseqüências dessa análise é que não existe uma Cultura de Massas, no sentido imaginado pelos críticos da comunicação de massa, porque esse modelo compete com outros (constituídos por vestígios históricos, cultura de classe, educação, etc.).

Assim, o público não seria um objeto passivo, mas um sujeito interativo, aberto o caminho para a sua diferenciação - e para a conseqüente transformação da mídia de comunicação de massa de difusor de mensagens direcionadas para o mais baixo denominador comum (de sua audiência) - para uma busca de identificação de segmentos customizados e individualizados.

Ainda que enfatize a autonomia da mente humana e o sistema cultural individual para preencher o real significado das mensagens recebidas, isso não implica que essa mídia seja uma instituição neutra, ou que os seus efeitos são desprezíveis. O que os estudos mostram é que ela não é uma variável independente induzindo comporta-mentos. O poder real da televisão é que ela prepara o palco para todos os processos que procuram ser comunicados para a sociedade como um todo.

A COMUNICAÇÃO MEDIADA POR COMPUTADOR

Diferente da comunicação de massa da televisão, cujo discurso é predominantemente de entretenimento, a comunicação interativa mediada por computador (CMC) - popularizada, principalmente, através da Internet - levou ao surgimento de comunidades virtuais, que são redes eletrônicas de comunicação interativa organizadas em torno do compartilhamento de interesses ou propósitos. Embora, às vezes, es-se tipo de comunicação se torne um objetivo em si mesmo, funcionando de maneira bastante informal, tais comunidades podem ser rela-tivamente bem formalizadas, como os newsgroups Usenet. Atualmente existem centenas de milhares desses grupos ao redor do mundo2.
2Uma rápida pesquisa no AltaVista (www.altavista.com) por newsgroups retornou 2.932.000 web pages, e procurando por all newsgroups, 5.917.610 web pages.

A capacidade da rede é tal que a maioria dos processos de comunicação ainda são espontâneos, não organizados, e com diversidade de propósitos e participação. Realmente, os interesses comerciais e governamentais coincidem, favorecendo e expandindo o uso da rede: quanto maior a diversidade de mensagens e participantes, maior é a massa crítica na rede, e mais elevado é seu valor.

Para alguns analistas, CMC, e particularmente e-mail, representa a vingança da mídia escrita, o retorno da mente tipográfica, a recuperação do discurso racional construído. Para outros, ao contrário, a informalidade, a espontaneidade, e o peseudo-anonimato dessa mídia estimula o que chamam de uma "nova forma de oralidade", expressa em textos eletrônicos. A utilização de escrita informal e não estruturada, com interação em tempo real de um chat síncrono (um telefone por escrito), induz à previsão do surgimento de uma nova mídia, que mistura formas de comunicação antes pertencentes a domínios distintos da mente humana.

Além da execução de tarefas profissionais, o uso de CMC já alcançou todo o reino das atividades sociais. Enquanto a utilização de telebancos ainda não é a preferência dos usuários medianos (até que todos sejamos forçados a assimilá-los), e teleshopping começa a tomar formas seguras de realização, a comunicação pessoal via e-mail explodiu como a mais usual forma de CMC fora do trabalho. Mas o uso de e-mail não substitui a comunicação pessoal, mas sim a comunicação por telefone, já que as secretárias eletrônicas criaram barreiras nas comunicações pessoais, o que fez do e-mail a melhor alternativa para a comunicação direta em horários escolhidos.

Assim, o uso da CMC expande o alcance das redes sociais e torna possível interagir mais ativamente e em padrões de tempo escolhidos. Como o acesso a CMC é cultural, educacional e economicamente restritivo3, o mais importante impacto cultural da CMC poderia, potencialmente, ser o reforço das redes sociais culturalmente dominantes, assim como o aumento de seu cosmopolitanismo e globalização.
3Mesmo com custos cada vez mais baratos de equipamentos e a constante ampliação dos serviços de telecomunicações, em escala mundial a maioria da população continua sem oportunidade de acesso à comunicação mediada por computador.

Um relatório do ITU - International Telecommunication Union - mostra o quanto se tornou crítico o acesso univesal às telecomunicações. Com uma demanda registrada de mais de 40 milhões de pessoas esperando por uma linha de telefone e com alguns países menos desenvolvidos tendo níveis de penetração de telecomunicações 200 vezes menor que os países desenvolvidos, o acesso universal se tornou uma das questões fundamentais para todos os países, devido a sua crescente importância econômica, educacional e social. Um resumo executivo desse relatório pode ser obtido no site:http://www.itu.int/ti/publications/WTDR_98/index.htmll

O PARADIGMA DA SOCIEDADE EM REDES

Já em 1936, discorrendo sobre o processo de formação de uma comunidade mundial cuja realização mais significativa seria a unificação física e espiritual da humanidade, o eminente pensador e líder bahá'í Shoghi Effendi escrevia para a Comunidade Bahá'í norte-americana: "Um sistema de intercomunicação mundial será adotado que abranja todo o planeta, e, livre de qualquer embaraço ou restrição nacional, funcionará com admirável rapidez e perfeita regularidade" [4]. Passados pouco mais de 60 anos dessa afirmação, não precisamos ser profissionais da área de informática para comprovar que hoje a Internet cumpre, em grande parte, a visão profética desse visionário místico.

Mas apesar de sua extraordinária evolução, esse "sistema de intercomunicação mundial" ainda não está totalmente realizado e seu desenvolvimento deverá continuar a expandir-se num ritmo ímpar nos próximos anos. Há concordância no meios científico, acadêmico e comercial de que a Internet vai continuar a desenvolver-se a ponto de abranger as atividades dominantes e os principais segmentos da população em todo o planeta.

Ainda que não consigamos antever totalmente o resultado dessa evolução, a transformação tecnológica que estamos vivenciando é de dimensões históricas similares à invenção do alfabeto há 2.700 anos. Pela primeira vez na história estamos vendo a integração dos vários modos de comunicação humana numa mesma rede interativa global. A união da comunicação escrita, oral e audiovisual num mesmo sistema, com pessoas interagindo de múltiplos pontos, simultânea ou assincronamente, de forma aberta e barata, proporcionadas por essa rede mundial de computadores, tem o potencial de mudar fundamentalmente o caráter da comunicação humana. E como, segundo POSTMAN, citado por Castells [1, p. 328] a comunicação definitivamente molda a cultura, a Internet está permeando o imaginário das pessoas, dos governos, das corporações, e de todas as demais instituições humanas, produzindo uma emergente cultura da virtualidade real.

A despeito de todos os esforços para regular, privatizar, e comercializar a Internet e seus sistemas tributários, as redes de comunicação mediada por computador, dentro e fora da Internet, são caracterizadas por sua ubiquidade, sua descentralização multifacetada, e sua flexibilidade. Essas redes certamente irão refletir os interesses comerciais, assim como irão estender o controle lógico da maioria das organizações públicas e privadas em todo o reino da comunicação. Mas, diferente da comunicação de massa de McLuhan, elas têm características tecnológicas e culturais embutidas de intera-tividade e individualização.

A coexistência pacífica dos vários interesses e culturas na rede tomaram forma na World Wide Web (WWW), uma flexível "rede das redes" na Internet, onde indivíduos, instituições, empresas e associações criam seus próprios sites, baseado no princípio de que cada pessoa com acesso pode criar a sua própria homepage, feita com uma variada colagem de textos, imagens e sons. A WWW permitiu o agrupamento de interesses e projetos na rede, sobrepujando as dificuldades anteriores pela busca de informações com o advento de sites e softwares especializados em catalogar "todo" o conteúdo da Internet. Nas bases desses agrupamentos, indivíduos e organizações se tornaram capazes de interagir significativamente naquilo que se tornou, literalmente, uma Rede de Amplitude Mundial (World Wide Web), uma teia de comunicação interativa individualizada.

CONCLUSÃO

Na conclusão de seu livro, Castells considera que, numa perspectiva histórica mais ampla, a sociedade em redes representa uma mudança qualitativa na experiência humana. Na sua visão sociológica, o embate entre Natureza e Cultura já está definido e agora estamos entrando realmente numa nova era que deverá ser marcada pela autonomia da cultura. Nas suas palavras:

"Se nos referimos à tradição sociológica antiga pela qual ação social em seu nível mais fundamental pode ser entendida como a troca de padrões de relacionamentos entre Natureza e Cultura, nós estamos realmente numa nova era.

O primeiro padrão de relacionamento entre estes dois pólos fundamentais da existência humana foi caracterizado por milênios pela dominação da Natureza sobre a Cultura. Os códigos sociais quase diretamente expressavam o esforço para sobreviver sob as condições severas e incontroláveis da natureza.

O segundo padrão de relacionamento, estabelecido no início da Idade Moderna e associado com a Revolução Industrial e o triunfo da Razão, foi a dominação da Natureza pela Cultura, fazendo a sociedade sair do processo de trabalho pelo qual a humanidade encontrou sua liberação das forças naturais e acabou submissa aos seus próprios abismos de opressão e exploração.

Agora nós estamos entrando num novo estágio, onde a Cultura refere-se à própria Cultura, tendo substituído a Natureza ao ponto de que a própria Natureza é revivida artificialmente ("preservada") como uma forma cultural: este é o significado real dos movimentos ecológicos, reconstruir a Natureza como uma forma cultural ideal. Por causa da convergência da evolução histórica e da mudança tecnológica, nós en-tramos num modelo puramente cultural de interação social e organização social.

É por isso que a informação é o ingrediente chave de nossa organização social e porque os fluxos de mensagens e imagens entre as redes constituem o encadeamento básico de nossa estrutura social. Não dá para dizer que a história acabou em uma feliz reconciliação da Humanidade consigo mesma. O oposto é mais verdadeiro: a história está apenas começando, se por história nós compreendermos o momento quando, após milênios de uma pré-histórica batalha com a Natureza, primeiro para sobreviver, depois para conquistá-la, nossa espécie alcançou o nível de conhecimento e organização social que vai nos permitir viver em um mundo predominantemente social. É o começo de uma nova existência e realmente o começo de uma nova era, a era da informação, que deverá ser marcada pela autonomia da cultura face a face com os fundamentos materiais de nossa existência."

Para o pensamento bahá'í [2] o que presenciamos agora também é o início da história da humanidade, a história de uma espécie humana consciente de sua própria unicidade. Mas essa compreensão da humanidade como um só povo e da terra como uma pátria comum, não será conquistada somente por um ato de evolução de consciência coletiva. Embora todo um sistema mundial de transformações econômicas, sociais e psicológicas estejam facilitando o surgimento dessa ampla e definitivamente nova compreensão do ser humano, o peso das tradições, crenças, superstições e concepções distorcidas do passado ainda continua cristalizado na consciência humana. Nada nos escritos bahá´ís abona a ilusão de que as mudanças previstas serão alcançadas facilmente. Muito pelo contrário, como os acontecimentos do século vinte já demons-traram, padrões de hábito e atitude arraigados durante milênios não são abandonados espontaneamente, nem simplesmente em res-posta à educação e à ação legislativa. Seja na vida dos indivíduos como na da sociedade, mudanças profundas em geral ocorrem como resposta ao sofrimento intenso e a dificuldades insuportáveis que não deixam outra saída. A cada dia que passa, multiplicam-se os sinais de que as pessoas, em todas as partes, estão despertando para este entendimento.

Isso nos conduz a um futuro artigo, onde pretendemos analisar como efetivamente a Internet está sendo utilizada como um mecanismo para a paz mundial.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

[1] CASTELLS, Manuel. The information age: economy, society and culture volume I the rise of the network society. USA: Blackwell Publishers, 1996.

[2] COMUNIDADE INTERNACIONAL BAHA'Í. Quem está escrevendo o futuro? Reflexões a respeito do século XX. /s.l./ Editora Bahá'í do Brasil, 1999.

[3] ECO, Umberto. Does the audience have bad effects on television? /s.l./ Indiana University Press, 1977.

[4] EFFENDI, Shoghi. Chamado às nações. /s.l./ Editora Bahá'í do Brasil, 1977.

[5] LEINER, Barry M. et al. The past and future history of the Internet. Communications of the ACM, v. 40, n. 2, p. 102-108, fev. 1997.

[6] NEUMAN, W. Russel. The future of mass audience. New York: University Press, 1991.

[7] POSTMAN, Neil. Amusing ourselves to death: public discourse in the age of show business. USA: Penguin Books, 1985.