As paredes e o carbono têm ouvidos

Autor: Pedro Luis Kantek Garcia Navarro


Há muitos anos atrás, um punhado de pessoas na CELEPAR resolveu fazer um jogo de empresas. Era uma iniciativa emocionante.

Diversos grupos foram formados, sendo cada um deles uma empresa hipotética. A cada semana, passava-se um trimestre no jogo, e a cada trimestre todas as empresas deviam tomar decisões (quanto investir em propaganda, quanto guardar de estoque, qual a política de preços etc) válida para aquele trimestre.

Foi muito interessante a participação. As empresas tinham nomes criativos (um deles era- - sabe-se lá o que isto significa - - PALOMBETA, BUTARGA e BUTARGA), faziam alarde e havia o mercado paralelo de apostas. O prêmio/castigo era um jantar no qual:

cada membro da equipe vencedora não pagava nada

cada segundo lugar pagava 0,5 jantar

cada terceiro lugar pagava um jantar completo

cada quarto lugar pagava 1,5 jantares

cada último pagava 2 jantares

Dependendo do conjunto de decisões, e de variáveis aleatórias representando um mercado real, o programa do jogo recalculava as posições e classificava as empresas por desempenho.
O jogo era muito emocionante, pois ninguém (exceto o aplicador do jogo) sabia quando o mesmo terminaria. Esta informação era crucial, já que de posse dela, qualquer empresa podia elaborar uma estratégia suicida, o que a deixaria longe na frente, mas só por 1 ou 2 trimestres, vindo depois a derrocada completa.

Neste jogo, o segredo é a alma do negócio. De fato, tão divertido quanto participar do jogo era acompanhar as sacanagens e contra-sacanagens entre as equipes para:

1. Esconder seu jogo.

2. Descobrir o jogo dos adversários.

Uma das equipes era atentamente observada. Reunia os maiores experts em administração e planejamento. Gente que varava noites fazendo e refazendo modelos, testando estratégias, consultando consultores. Dava gosto ver a equipe trabalhando.

Que resultado eles tiraram? O último. Sabem porquê? A despeito de todo o sigilo que envolvia os documentos da equipe, quando o resultado chegava, ele vinha em 2 vias, que eram destacadas, trancadas a sete chaves e o carbono... ia para o lixo. Tão logo a equipe desocupava a sala, as outras 4 equipes iam em caravana, rebuscar o lixo e apreender toda a estratégia da equipe de "experts". Acho que até hoje eles não se conformam em ter tirado o último lugar.